Blog do Semy Ferraz


13/09/2016


DEFENDA SOBRETUDO NOSSA CONSTITUIÇÃO, MINISTRA CÁRMEN LÚCIA

Semy Ferraz (*)

Causou-me apreensão a declaração da Ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), de que, como próxima presidente da mais alta corte, pretende defender a língua portuguesa. Essa declaração foi resposta a uma consulta do Ministro Ricardo Lewandowski, atual presidente, de como ela prefere ser chamada, de “presidente” ou “presidenta”.

Tenho o maior respeito pela Ministra Cármen Lúcia, não apenas pela liturgia no exercício do cargo, mas, sobretudo, pela trajetória de dignidade com que chegou à mais importante corte do País. Por isso é que me dirijo a ela para, humildemente, como brasileiro que lutou pela implantação do Estado Democrático de Direito e pela elaboração da Constituição Federal de 1988, pedir-lhe que defenda, acima de tudo, nossa Constituição Cidadã.

Num dramático momento da história do Brasil, em que muitos fora de lei esnobam acintosamente, em tom de deboche, os brasileiros cumpridores de seus deveres, cabe ao STF o papel de guardião da Constituição Federal e do Estado Democrático de Direito. Embora existam precedentes deploráveis de que a Suprema Corte se curvou em abril de 1964, em dezembro de 1968 e em abril de 1977, sem dúvida, depois de outubro de 1988, reconquistou seu papel histórico com a maior altivez.

Essa apreensão não decorre tão somente pelo ambiente golpista que ronda o Palácio do Planalto a partir do final de 2015 e culminou em 12 de maio de 2016, quando do afastamento da Presidenta Dilma Rousseff do cargo conquistado legitimamente nas urnas. Os mesmos personagens saídos dos obscuros labirintos do poder paralelo que diversas quadrilhas foram construindo à revelia da lei e da ordem têm tido suas ações investigadas há pelo menos uma década pelo Ministério Público da União e pela Polícia Federal.

São os mesmos conspiradores do Estado de Direito e da soberania popular que estão na iminência de pagar por crimes denunciados pela Operação Lama Asfáltica. Esses expoentes da política estadual respondem, inclusive com prisão provisória pela iminente ameaça que representam estando em liberdade. Pois, muitos deles foram indiciados na Operação Vintém, que elucidou a farsa eleitoral montada para inviabilizar minha reeleição, há quase uma década. Quase dez anos em que espero, como a maioria dos brasileiros, que seja feita justiça com tão eloquentes provas do crime que foi cometido contra minha honra, imagem pública e vida política interrompida.

E foi, aliás, a própria Ministra Cármen Lúcia que, como relatora da Operação Vintém no STF, remeteu à Justiça Federal o processo contra o então deputado federal Edson Girotto, por entender que não tinha foro privilegiado ao ter-se licenciado para assumir o cargo de secretário de Obras no governo de seu chefe André Puccinelli. A decisão da ministra foi questionada pelo Procurador-Geral da República Rodrigo Janot, que reuniu a jurisprudência em seu argumento, mas a demora para se manifestar e a extinção do mandato de Girotto levaram o processo para a Justiça Federal. Ao final, o juiz Dalton Igor Kita Conrado, da 5ª Vara Federal de Campo Grande, o inocentou no início deste ano, junto com André Puccinelli Jr., Micherd Jafar Jr. e Edmilson Rosa.

Os operadores do Direito costumam dizer que não há nada pior que uma Justiça demorada. Mas se isso acontece com um homem público como eu, que tenho percorrido todas as instâncias do Poder Judiciário à procura de justiça, imaginem, então, como ficarão os cidadãos anônimos, destituídos de condições econômicas para constituir um advogado para a sua causa?

Por isso, Ministra Cármen Lúcia, reitero: defenda sobretudo a Constituição Federal, legado de toda a geração das Diretas-Já, da luta pela implantação do Estado Democrático de Direito, que está na iminência de virar letra morta pela ação das poderosas quadrilhas que se encastelaram sob a batuta de grupos políticos golpistas e antidemocráticos à caça de poder e de privilégios.

 

(*) Semy Alves Ferraz é engenheiro civil, ex-deputado estadual e ex-secretário de Infraestrutura, Transportes e Habitação de Campo Grande (MS).

Escrito por Semy às 09h16
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23/08/2016


O feitiço não virou contra o feiticeiro!

Você se lembra da Operação Vintém?

Esta operação foi deflagrada em 2007 para apurar um crime eleitoral no qual, ao decorrer da investigação 204/2006, foi constatado a influência do filho do ex-governador do estado de Mato Grosso do Sul, o advogado André Puccinelli Jr, bem como dos seus amigos Edson Giroto (ex-secretário de Obras, tanto da capital Campo Grande quanto do estado e ex-Deputado Federal também pelo mesmo MS, envolvido na operação lama asfáltica), Mirched Jafar Junior (dono da Gráfica Alvorada, ganhador de milionárias licitações e, na mesma intensidade, envolvido em inúmeros processos por estas mesmas licitações e investigado pela Lama Asfáltica) e Edmilson Rosa (capacho de Edson Giroto e proprietário da empresa de engenharia RMW Empreendimentos).

O fato acontecido em 2006 foi motivado pelas desavenças pessoais que o Prefeito André Puccinelli (candidato a governador na época) tinha com a minha pessoa em razão da minha atuação combativa e fiscalizadora como Deputado Estadual.

Afim de prejudicar a minha reeleição, André e seus amigos orquestraram um esquema ao arrombar o carro do coordenador da minha campanha e ao colocar santinhos meus grampeados em notas de vinte reais, simulando que o meu coordenador pudesse estar na iminência de comprar votos.

Com o esquema pronto ligaram para a Polícia Federal para fazerem uma “denúncia anônima” reputando o falso crime ao meu assessor.  Meu coordenador foi “pego” em flagrante, ouvido por mais de cinco horas e toda a minha campanha à reeleição com isso foi afetada.

Pois bem. Com todos os fatos apurados e investigados, tudo bem conduzido pela Polícia Federal, os amigos do André foram indiciados em 2008, tornando-se réus no processo nº. 0003258-94.2007.403.6000 sob o crime de denunciação caluniosa.

De 2007 até 2015 foi um período longo e de muita espera por uma sentença. Entre idas e vindas à Brasília, foro privilegiado e muita demora, no início deste ano o processo foi sentenciado. Pasmem!

O  juiz da 5ª. Vara da Justiça Federal de Campo Grande,  Dr. Dalton Igor Kita Conrado, proferiu sentença inocentando os réus ANDRÉ PUCCINELLI JÚNIOR, EDMILSON ROSA, EDSON GIROTO E MICHERD JAFAR JUNIOR sob o argumento de que não houve inquérito policial conclusivo para a tipificação do crime de denunciação caluniosa:

 “não foi instaurado inquérito policial para apurar fato relacionado ao Semy Ferraz ou Benoal Prado Sobral, porque o “Delegado de dia” considerou o fato atípico e o Delegado Federal que presidia o inquérito policial sobre corrupção eleitoral já tinha conhecimento de que os “santinhos” foram colocados no veículo de Benoal à sua revelia, devido à interceptação telefônica.”

Vê-se que o juiz se equivocou muito, pois ele embaralhou toda a ordem cronológica dos fatos! Lembremos os fatos. O crime ocorreu dia 29/09/2006, quando o Edson Giroto ligou para a Policia Federal e fez a denúncia de que o meu assessor estava comprando votos. Benoal foi detido e encaminhado a Policia Federal onde permaneceu por mais de cinco horas para ser ouvido. Importante frisar que o Delegado da PF não tinha conhecimento das interceptações telefônicas à época.

O falso crime de denunciação caluniosa foi publicado nos jornais: Correio do Estado e Campo Grande News nas edições do dia 30/09/2006, informando que o coordenador da minha campanha havia sido preso comprando votos. Este fato lamentável provocou a minha não reeleição a deputado estadual.

Como eu tinha certeza de que o meu coordenador não estava comprando votos, tentei reverter (sem sucesso) esta notícia falsa e negativa, informando que se tinha alguém com a intenção de prejudicar a minha reeleição poderia ser o candidato a governador Puccinelli.

E que por isso, lamentava o fato da Policia Federal estar a serviço de um crime para prejudicar um candidato a reeleição que tinha denunciado casos de corrupção contra o próprio André (naquele momento o André era investigado por diversas ações intentadas por mim como a Área do Papa, a Privatização da Águas e emblemático e notório caso dos Garis Laranjas).

  Diante da minha suposta suspeita de que a PF teria colaborado com a farsa, a PF fez uma busca minuciosa e encontrou em interceptações telefônicas diversas (de outras operações) toda a trama para prejudicar a minha reeleição. 

Em 17 de janeiro de 2007 foi deflagrada a Operação Vintém, que na ocasião, realizou diversas buscas e apreensões nas residências de André Puccinelli Junior (filho do governador), na Secretaria de Obras do município de Campo Grande (que tinha sido comanda pelo Edson Giroto), bem como realizaram buscas na residência de Micherd Jafar Junior e do Edmilson Rosa, sendo que estes dois últimos foram presos naquele momento.

Ao longo do processo, Edmilson Rosa se tornou réu confesso ao afirmar que foi ele quem colocou os “santinhos grampeados nas notas de vinte reais” no carro do Benoal. Além disso, o próprio Edson Giroto afirmou nos interrogatórios da Policia Federal que foi ele quem ligou à Policia Federal denunciando que o assessor do Semy estava comprando voto.

Enfim, vê-se que esta decisão do  Juiz da 5ª. Vara da Justiça Federal de Campo Grande,  Dr. Dalton Igor Kita Conrado,  foi  leniente com o crime, criando      um precedente muito perigoso e  estimula a ocorrência de crime de denunciação caluniosa nestas eleições que se avizinha, pois à época dos fatos, o delegado da polícia federal não tinha conhecimento das interceptações telefônicas. O fato delituoso ocorreu no fim do mês de setembro de 2006, já a deflagração da operação vintém (a tomada de conhecimento das interceptações) apenas ocorreu em janeiro de 2007.  

Afim de reduzir os danos, Dra. Damaris de Alencar, Procuradora Federal do MPF, interpôs recurso de apelação onde fez a seguinte citação: “O Ministério Público Federal, inconformado com a sentença a quo (fls.2373/2377), vem apresentar as razões  de seu recurso de APELAÇÃO. Isso porque, no entender deste órgão ministerial, o magistrado “a quo” se equivocou ao absolver os réus André Puccinelli Junior, Edmilson Rosa, Edson Giroto e Mirched Jafar Junior.”

No decorrer do recurso o MPF é enfático quando afirma que: “9.  Não é função do juiz legislar, acrescentando exigências extralegais a tipos penais. A lei é clara. Basta que a falsa comunicação de crime dê início a uma investigação policial (gênero) para que se tipifique o delito previsto no art. 339, do Código Penal.”

  Lamentável que isso tenha acontecido, porém não me surpreende, afinal, já tivemos outra posição equivocada da justiça, ocorrida pela Ministra Carmem Lucia do STF, em 2014, quando entendeu que a ação penal contra os amigos de Puccinelli (AP 605) deveria ser remetida para a primeira instância em decorrência do afastamento de Giroto, que em 2013 assumiu Secretaria de Obras do Estado de Mato Grosso do Sul, apesar da jurisprudência sobre a matéria ser totalmente contrária este ato, afinal, Giroto ainda tinha o foro privilegiado por ser Deputado Federal do estado de Mato Grosso do Sul.

  Irresignado, o Procurador Geral de Justiça, Dr. Rodrigo Janot, à época, interpôs um pedido de reconsideração e um agravo regimental com a seguinte argumentação:

“O art. 56, inciso I, da Constituição Federal disciplina que

Deputados e Senadores não perderão o mandato se forem investidos nos cargos de “Ministro de Estado, Governador de Território, Secretário de Estado, do Distrito Federal, de Território, de Prefeitura de Capital ou chefe de missão diplomática temporária.  .....

Ademais, a jurisprudência do STF é, salvo melhor juízo, pacífica no sentido de que o parlamentar federal licenciado para

ocupar os cargos supra não perde a prerrogativa de foro perante

o STF:........

Ante o exposto, o Procurador-Geral da República requer a reconsideração da decisão ora atacada, para que o presente feito seja julgado pelo STF, uma vez que o Deputado Federal licenciado Edson Giroto ainda goza de prerrogativa de foro perante a Suprema Corte.”

   Desta forma, vê-se que a ação penal AP 605, sob relatoria da Min. Carmem Lucia, ficou parada no STF até o deputado Edson Giroto (PMDB) concluir o seu mandato em 31/01/2015. Dai, com o fim do mandato e a perda do foro privilegiado, o processo retornou para a 5ª. Vara da Justiça Federal em Campo Grande.

Curioso ressaltar outro fato interessante. Os áudios das interceptações telefônicas continuam sumidos desde então. E eles sumiram provavelmente nesta mesma vara onde foi proferida a sentença. Coincidências do destino, não?

À época de quando foi constatado o sumiço dos áudios, eu fui pessoalmente até o Delegado da Policia Federal, Dr. Otacilio Dela Pace, sendo que o mesmo me garantiu que os áudios gravados em CD foram entregues em perfeito estado e nas mãos do secretário da 5ª. Vara da Justiça Federal de Campo Grande.

  Estranho, não é mesmo?

A minha esperança é de que o TRF da 3ª. Região corrija esta decisão equivocada que só serve para estimular o crime cometido por políticos, justamente num momento que o povo brasileiro quer o combate à impunidade e está sedento por JUSTIÇA!

 Campo Grande - MS, 14 de agosto de 2016

             Semy Alves Ferraz

Escrito por Semy às 20h54
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12/06/2016


Artigo do Ahmad Schabib Hany

SENHOR MÁRIO CORRÊA ALBERNAZ, UM COMPANHEIRO A TODA PROVA!

 Como que estivesse tomado por uma inexplicável necessidade de trocar algumas palavras com meu querido Amigo, o Senhor Mário Corrêa Albernaz, fui à rede social por meio da qual costumávamos “conversar” desde que nos reencontramos, há pouco mais de um ano.

 Eis que me deparo com uma insólita mensagem de sua querida Filha Tânia (que conheci aos seus três anos) em que registrava com pesar seu primeiro mês de falecimento.

 Uma terrível dor no peito tomou conta de mim, e não sosseguei até escrever estas sinceras linhas sobre esse verdadeiro Amigo, Companheiro, Camarada, Mestre, que a Vida me presenteou, que sempre chamei de Senhor Mário, ainda que nossa Amizade – e, sobretudo, a sua inesgotável humildade – insistisse que o chamasse pelo nome.

 É que há pessoas tão especiais (mais que isso, elevadas) às quais não conseguimos nos dirigir de forma íntima, que nos parece desrespeitosa. É o caso de minha relação com o agora saudoso Senhor Mário, sua estimada Esposa, a Professora Isaura Matheus Albernaz, e o(a)s quatro querido(a)s filho(a)s – e também querido(a)s Amigo(a)s –, dois casais: Lenine, Adriana, Daniel e Tânia.

 Como gostaria de haver dado um abraço apertado a ele. Como gostaria de haver estado em Campo Grande antes do fatídico dia 10 de maio, como chegamos a combinar. Mas exatos 31 dias depois é que tomo conhecimento de sua eternização.

 Conheci o Senhor Mário em abril de 1979, na sede da recém-inaugurada sede da seção estadual da OAB/MS, então sob a presidência de seu primeiro titular, o Doutor Wilson Barbosa Martins, situada na esquina da rua Cândido Mariano (depois Marechal Rondon) com a rua Pedro Celestino, em pleno centro da nova capital. Tratava-se de uma reunião do Comitê Mato-grossense de Anistia e Direitos Humanos, presidida pelo também saudoso Amigo e Companheiro Doutor Ricardo Brandão, advogado e poeta amante da integração latino-americana.

 Observador, assim que o grupo de estudantes da FUCMT chegara para assistir aquela inusitada reunião (jovens entre 19 e 23 anos), num dos raros intervalos, o Senhor Mário foi estabelecendo um canal de comunicação, como que percebesse o acanhamento desses aprendizes de cidadãos. Logo eu, então muito tímido, já estava à vontade e conversando com ele como se fôssemos velhos conhecidos.

 Assim que a reunião terminou, se apresentou e convidou o grupo a participar das atividades relativas ao Primeiro de Maio, Dia Internacional do Trabalhador, que ocorreria semanas depois no emblemático Bairro Guanandi, emblemático reduto da oposição. Nós não pudemos ir porque estávamos participando do XXXIX Congresso da UNE, em Salvador (Bahia).

 Na época, o Senhor Mário Albernaz era chefe de gabinete do Deputado Sérgio Cruz, líder da bancada do MDB na Assembleia Constituinte de Mato Grosso do Sul, mas tamanha a desenvoltura dele, muitas pessoas humildes chamavam seu Mário de Deputado. Prestativo, solidário, ele ouvia longamente as pessoas, fosse na rua ou no gabinete, e sempre dava um jeito de resolver, dentro de suas possibilidades, os seus problemas.

 Alguns meses mais tarde, no segundo semestre de 1979, nos encontramos nos corredores da Assembleia Legislativa, no prédio alugado da Missão Salesiana (onde mais tarde foi o Museu do Índio e atualmente é a sede da inspetoria). Eu fazia parte de uma comissão de estudantes do curso de História e nossa missão era levantar fundos para fretar um ônibus para conhecer as ruínas de Santiago de Xerez, em Aquidauana, sob a coordenação da Professora Rosemeire Nunes da Cunha, então coordenadora do curso.

 Solícito, o Senhor Mário se prontificou a apresentar a comissão de estudantes a todos os seus colegas de assessoria dos parlamentares do MDB, à época a única oposição ao regime de 1964. Foi quando conhecemos os gabinetes dos deputados Sérgio Cruz, Roberto Orro, Sultan Rasslan, Onevan de Matos, Odilon Nakasato, Getúlio Gideão e Jesus Gaeta (nessa ocasião pude reencontrar dois Amigos corumbaenses, o Jornalista Edson Moraes, que assessorava Sérgio Cruz, e o contabilista Pedro Capurro, chefe de gabinete de Jesus Gaeta).

 Mas nossos contatos se intensificaram no debate preliminar à agenda da transição democrática que o então general-presidente João Baptista Figueiredo quis iniciar com a imposição de uma anistia que contemplava torturadores e uma reforma partidária que implicava na extinção dos dois partidos permitidos até então (Arena e MDB). Ele e a maioria dos oposicionistas sul-mato-grossenses eram contrários ao fim do MDB, que começava a reunir condições de vencer a Arena (mais tarde PDS) e iniciar o processo de transição para o Estado Democrático de Direito.

 Ao contrário da maioria dos assessores da bancada da oposição, o Senhor Mário Albernaz era um incansável militante da causa democrática. Ainda jovem, foi para São Paulo no período anterior ao golpe de 1964, e como metalúrgico da Mercedes-Benz foi discreto sindicalista, quando conheceu partidos de esquerda, entre eles o velho PCB. Muito discreto, apenas falava de sua simpatia pelo socialismo, a ponto de o seu filho primogênito se chamar Lenine, homenagem ao líder bolchevique da Revolução Socialista na Rússia.

 Somente em 1980, precisamente a partir de maio, é que passei a conviver com ele, na condição de prestador de serviço num projeto em que, com o fim imposto ao MDB, a oposição precisava se estruturar, até porque havia sido objeto de um assédio inominado, com a oferta de cargos públicos e vantagens inimagináveis até então. Para minha felicidade, nesse convívio salutar, tive oportunidade de reencontrar Companheiros do Movimento Estudantil, como Mário Sérgio Lorenzetto, Flávio Teixeira e Amarílio Ferreira Júnior, além do Amigo Edson Moraes, grande revelação do Jornalismo Investigativo de Corumbá de meados da década de 1970.

 Nesse um ano de trabalho com o Senhor Mário Albernaz, conheci muitas pessoas, desde o(a)s anônimo(a)s que procuravam justiça e assistência num tempo em que o direito era sonegado a toda a população – ainda mais aos mais humildes – e verdadeiras celebridades, como Ulysses Guimarães, Miguel Arraes, Teotônio Vilella, Darcy Ribeiro, Leonel Brizola, Lula, Dante de Oliveira, Tancredo Neves, Wilson e Plínio Barbosa Martins, e aprendi muito: pus em prática minhas noções de pesquisa de campo; aprendi a ouvir pessoas de todas as classes sociais e graus de escolaridade; perdi o medo de falar ao microfone, não só falando em reuniões pequenas como em comícios com mais de mil pessoas; desenvolvi minha capacidade de redação, e, sobretudo, me politizei dentro dos parâmetros dialéticos, sem qualquer ingerência exercida por ele, que se identificava comigo e me incentivava a seguir em frente, mesmo sabendo que a tendência era deixar aquele projeto para seguir meu próprio rumo.

 O referido projeto teve início em maio de 1980 e em maio de 1981 se encerrou. Sem dúvida, embora ele discordasse das razões de minha saída, manteve sua Amizade (com letra maiúscula) até os momentos derradeiros de sua generosa e solidária existência entre nós. Eu tive a sorte de lhe dizer pessoalmente que, embora seu cargo usasse o termo “chefe” (afinal, ele era chefe de gabinete), ele havia sido um Amigo experiente que me permitia comandar inclusive a ele, tamanha a sua generosidade.

 Além de me ensinar muito, mesmo, o Senhor Mário me encorajou – isso mesmo: me deu coragem – e me estimulou a saber conviver na diversidade, coisa muito rara naquele tempo em que as pessoas tinham que ter muita prudência, pois havia muito informante, muito “dedo-duro”, muito X9... Eu mesmo, no ano anterior, experimentara um rótulo desses e o gelo decorrente da desconfiança. Felizmente o mal-entendido foi superado e eu soube não guardar mágoa pela terrível experiência.

 Sem cometer qualquer exagero, posso dizer que seu espírito proletário, sua alma peregrina de socialista autêntico, me proporcionou momentos inesquecíveis. O primeiro deles – e faço questão de compartilhá-lo – foi o gentil convite-surpresa ao aniversário de nove anos de sua querida filha Adriana, e posteriormente, por centenas de vezes, convidado a almoçar e jantar em seu lar acolhedor. Essa generosidade sempre foi compartilhada por sua Esposa, a Professora Isaura Matheus Albernaz, e todo(a)s o(a)s querido(a)s filho(a)s, que ficaram amigo(a)s para a Vida toda. E como se essa atitude não fosse suficientemente eloquente de seu caráter solícito, quando de uma de suas vindas a Corumbá, na década de 1980, fez questão de visitar meus pais em casa para dar o seu testemunho sobre minha conduta como estudante e agente social, quando se tornou Amigo de meu Pai, com quem se identificou.

 Aliás, tal qual outro grande e querido Amigo, também saudoso, o eterno e terno Manoel Sebastião Costa Lima (criador da lendária Livraria Guató, de saudosa memória), o Senhor Mário Albernaz discretamente se afastou do ativismo partidário, mas não abandonou a política. Tanto é verdade, que acabamos por nos reencontrar exatamente por causa disso nas redes sociais.

 E o mais importante: enquanto políticos e intelectuais outrora de esquerda, por razões que não cabe entrar no mérito, têm justificado a guinada à direita de velhas lideranças políticas do tempo das lutas em favor da redemocratização, o Senhor Mário Albernaz, teórica e praticamente dialético, soube compreender o atual contexto político-econômico e se posicionou como sempre, ao lado das amplas camadas sociais, do povo, sempre na perspectiva da emancipação proletária e da soberania popular.

 Longe de querer incorrer numa leviandade, mas os derradeiros momentos de sua generosa existência se deram na dramática e conturbada antevéspera da consumação do golpe parlamentar que afastou a Presidenta Dilma Rousseff do Palácio do Planalto. Sem dúvida, esse estresse pode ter sido determinante para abreviar o tempo de convívio com sua querida Família, o(a)s Amigo(a)s e contemporâneo(a)s, como sua página numa das redes sociais podem constatar.

 O fundamental é que o Senhor Mário Albernaz viveu com a intensidade dos justos, leais, honestos e sinceros: coerente com sua trajetória de Vida, permaneceu no mesmo lado – do(a)s excluído(a)s – desde tenra juventude. Um exemplo vivo. Um eloquente testemunho-vida. Um generoso convite para a Vida a serviço do(a) outro(a).

 Obrigado por ter existido e compartilhado conosco seus momentos únicos e diversos! Até sempre, querido Amigo!

Ahmad Schabib Hany

Escrito por Semy às 13h56
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05/01/2016


DILMA NÃO É COLLOR: IMPEACHMENT É GOLPE!

Ahmad Schabib Hany

Um dos legados do marxismo -- ou melhor, do materialismo dialético -- é a análise com base no contexto histórico. Até os mais avessos às ideias revolucionárias de Marx reconhecem essa fundamental contribuição para o conhecimento. É como se antes disso, ao se conhecer um fato, ele ficasse “solto”, desvinculado do conjunto de circunstâncias ou fatores intrínsecos à realidade em tela.

Foi a partir da adoção desse método que a humanidade passou a compreender o processo histórico de forma crítica e profunda, inclusive e sobretudo a vanguarda das classes proletárias. Tanto é verdade, que as máquinas de propaganda do nazismo e do fascismo, nas primeiras décadas do século XX, funcionaram mediante a negação desse procedimento. Isto é, ao ser manipulado o contexto histórico, determinado fato, fora de contexto, virava factoide, ficção, instrumento de propaganda.

Pois, em plena segunda década do século XXI, nos vemos às voltas com manipulações dessa natureza, feitas com o maior cinismo e acinte, como se tivéssemos sido abduzidos por algum extraterrestre e nossa memória estivesse definitivamente comprometida. Desta vez, porém, com a participação explícita de setores autointitulados de “democratas”, “socialdemocratas” e, pior, ex-“marxistas” (ou marxistas arrependidos).

Curiosamente, é que estes, sobretudo os ex-“marxistas”, na ânsia de se legitimarem no conjunto da pseudovanguarda neoliberal, procuram fundamentar a intolerância golpista dos órfãos da ditadura de 1964 e dos grupos políticos que a gestaram (como a UDN, de triste memória), praticando a cartilha bizarra e anacrônica de Goebbels, o homem da propaganda de Hitler.

Insistem, teimam copiosamente, em reiterar fatos inverossímeis como se todos fôssemos a “velhinha de Taubaté”, criação do extraordinário Luís Fernando Veríssimo, em sua magistral crônica dedicada ao último general-presidente, em 1983. Repetem as absurdas mentiras até torná-las verdade no senso comum, no afã mesquinho e sórdido de arranjar um atalho espúrio para chegar onde não tiveram capacidade de conquistar pelo voto democrático.

Nem que para tanto venham a comprometer a jovem democracia, destruir a economia do país, causar danos irreparáveis à população e imolar a primeira mulher a exercer o principal cargo da República, cientes que são de sua probidade e, sobretudo, determinação republicana de não permitir que alguém obste o curso dos inquéritos da Polícia Federal ou do Ministério Público.

Não há como não reconhecer a diferença abismal entre Collor de 1990 e Dilma de 2015.

Depois de implantar um conjunto de medidas contra o país ao escancarar sem qualquer critério o mercado brasileiro às multinacionais -- promovendo uma quebradeira de indústrias nacionais e demissões de trabalhadores --, de confiscar impunemente a poupança de toda a população e de achatar o poder aquisitivo dos assalariados, Collor se envolveu (ou foi envolvido por seus principais assessores) em falcatruas que direta e irrefutavelmente o beneficiavam e à primeira-dama.

Dilma, ainda que tenha sido levada a tomar medidas impopulares em seu segundo mandato, manteve os programas sociais, as políticas habitacionais e a economia do país sob controle: apesar da torcida e boataria dos sabotadores, a inflação anual não chegou a 11%, quando FHC, antecessor de Lula, emplacou em 1999 e 2000 índices próximos de 15%, as maiores taxas de desemprego pós-1985 e arrocho salarial sem precedentes.

Além disso, a atual presidente não só não interfere no processo de investigação das diferentes denúncias -- que remontam a outros mandatos presidenciais, inclusive do cardeal-mor do tucanato --, como em nenhum momento houve qualquer evidência de alguma suposta participação sua, seja por ação ou omissão deliberada.

Esses são, a bem da verdade, aspectos do contexto histórico que os ex-“marxistas” omitem ainda que os dominem como bons alunos que foram das organizações predecessoras do PPS e do PSDB (não esqueçamos o passado “subversivo” dos cardeais dessas duas legendas, reduzidas a reles serviçais da direita provinciana, obtusa e intolerante).

Na verdade -- e eles conhecem sobejamente esse fato --, entre os mais afoitos pela destituição da Presidente Dilma Rousseff estão os que são alvo das investigações, mas cujos nomes ainda não vieram à tona. Sejam eles membros da oposição ou do governo (neste ou em mandatos anteriores, no de Lula, FHC e inclusive Itamar), por sua prática promíscua, não demorarão a serem levados às barras dos tribunais, tal qual Eduardo Cunha, eleito presidente da Câmara com seus votos “éticos”.

Ainda que por caminhos tortuosos e duros, a esquerda, mais uma vez, dá a sua contribuição à história republicana ao incorrer em erros primários, como o de não ter realizado uma profunda auditoria tão logo assumiu o Executivo nacional e denunciado os esquemas e quadrilhas existentes desde os mais remotos tempos de nossas precárias instituições públicas -- sempre, aliás, privadas, em razão da promiscuidade entre a “casa grande” e o Estado, antes vinculado a uma corte corrupta, gananciosa, primitiva e ignorante.

Mas Dilma, como Lula, vem pagando o preço de haver promovido uma verdadeira ascensão social multitudinária por meio de políticas públicas outrora relegadas a meras promessas eleitorais, além de -- particularmente Dilma ao final de seu primeiro mandato -- ter empreendido uma política externa que não apenas reafirmou a soberania nacional, mas deu eloquentes provas de o Brasil se distanciar dos Estados Unidos e de sua política beligerante e intervencionista, protagonizando a inimaginável conformação do novo bloco econômico, dos BRICS, e de seu banco de desenvolvimento. Não tenhamos dúvida de que por trás de bizarros “líderes” de organizações como o (sic) “Movimento Brasil Livre” encontra-se a “mão invisível” dos maiores controladores do deus-mercado.

Atribuída a um combatente comunista, meticulosamente escolhido pelo núcleo de poder do regime de 1964 como “inimigo público número 1”, Carlos Marighela teria sentenciado, num dos infindáveis debates da vanguarda marxista nos anos de chumbo, que “a prática é o critério da verdade”. Ex-“marxistas”, “socialdemocratas” e “democratas” têm conhecimento disso. E a história, mais cedo ou mais tarde, os chamará à razão, pois sua ação, ou omissão, não passa despercebida neste contexto crítico -- e por isso de avanço, de superação --, queiram ou não as peçonhentas pitonisas do retrocesso.

Escrito por Semy às 12h52
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20/07/2015


SOBRE AS DEMISSÕES EM MASSA NO FRIGORÍFICO DE PARANAÍBA

Semy Ferraz (*)

Vemos com profunda perplexidade o anúncio da demissão de 530 trabalhadores do Marfrig, de Paranaíba, a partir desta segunda-feira. Segundo a nota da direção, tomou-se essa medida “por motivos estratégicos e de reavaliação de negócio, devido à pouco disponibilidade de matéria-prima na região e à ociosidade da perspectiva da planta”.

É de pasmar tal decisão, pois, há menos de três semanas, em contato com responsáveis pelo referido frigorífico, não havia qualquer preocupação – e muito menos indício – que justificasse tamanha calamidade. Além do impacto social perverso, essa avalanche de demissões causa um verdadeiro caos à economia local.

Afinal, são 530 chefes de família a perder sua fonte de renda num universo populacional de 42 mil habitantes (população aproximada por estimativa do IBGE de 2014). Isso sem se levar em conta que o salário médio desses trabalhadores é de quase dois salários mínimos – portanto, membros de um importante segmento de consumidores no mercado da região.

Por outro lado, a característica dos empreendimentos rurais de Paranaíba é de pequenos e médios produtores rurais, em um número aproximado de 1.300 pecuaristas com pequenos rebanhos de corte e de leite. O encerramento das atividades desse frigorífico, ainda que temporário, causará um estrago ainda maior, se levarmos em conta a desestruturação súbita da cadeia produtiva, num momento em que a economia se encontra retraída e o mercado exige mecanismos articulados de enfrentamento.

Segundo dados disponibilizados pela entidade que representa os abatedouros e similares do estado, com o fechamento desse que é o maior frigorífico da região de Paranaíba, já são 16 frigoríficos a encerrar suas atividades e demitir mais de sete mil e quinhentos trabalhadores em menos de um ano. É fundamental que, em escala estadual e nacional, haja uma resposta política, ou melhor, de política pública, capaz de alavancar medidas alternativas que atenuem e absorvam os fatores de desequilíbrio da crise no setor.

Mas não percamos de vista, a propósito, os malefícios da cartelização da indústria da carne e dos laticínios. Além de medidas de alto impacto, como no caso das demissões, quem produz não tem a remuneração justa: os preços praticados pelos atravessadores são aviltantes, pois, no caso do leite, os produtores da região recebem hoje, no máximo, R$ 0,95 por litro, enquanto ao lado, nos estados de Goiás, São Paulo e Minas Gerais, paga-se até R$ 1,35 por litro.

Reiteramos, a demissão de 530 trabalhadores do Marfrig é uma evidente ameaça ao equilíbrio social de toda a região, que tem na pecuária a sua base econômica e razão de ser. Por isso mesmo, mais que uma mera medida administrativa, é um atentado à dignidade e à paz social da cidadania sul-mato-grossense. E permanecer inerte é um gesto de irresponsabilidade, ou melhor, uma atitude criminosa.

Se levarmos em conta que em Mato Grosso do Sul a pecuária de corte e de leite representa um segmento econômico fundamental, é urgente que os agentes econômicos, sociais e políticos – em outras palavras, lideranças empresariais, trabalhadores, produtores rurais, prefeitos da região, Bancada Federal, Delegacia Federal da Agricultura, Assembleia Legislativa, Governo do Estado, Governo Federal, etc – abandonem as diferenças e somem numa grande ação para a solução imediata para esta dramática crise que avilta a dignidade de todos.

Por isso, conclamamos, como paranaibenses e sul-mato-grossenses, à união por Paranaíba, em defesa da manutenção dos empregos, e em defesa, em última análise, da vida, da paz, da dignidade e do progresso da família paranaibense.

 

(*) Semy Alves Ferraz é engenheiro civil, ex-deputado estadual e ex-secretário de Infraestrutura, Transportes e Habitação de Campo Grande.

Escrito por Semy às 11h09
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16/07/2015


Carta dos Guarani e Kaiowá ao papa Francisco

Amado papa Francisco,

Nós, povos indígenas do Brasil, sofremos um processo de ataque violento contra nossas comunidades, nossas lideranças e nosso direitos. OsGuarani e Kaiowá vivemos no estado do Mato Grosso do Sul enfrentamos as piores condições de vida, sofremos a violência mais profunda e uma situação de maior vulnerabilidade social e cultural no país. Somos cerca de 45 mil pessoas e vivemos no exílio, fora de nossas terras, que se encontram invadidas por fazendeiros que delas nos expulsaram em passado recente com o apoio do Estado brasileiro.

Em 2014, 138 indígenas foram assassinados no Brasil. Destes, 41 foram no estado do Mato Grosso do Sul. No mesmo ano, 135 indígenas se suicidaram no país, sendo que no Mato Grosso do Sul foram 48 indígenas mortos por suicídio. No Brasil, em 2014, 785 crianças indígenas morreram antes de completar cinco anos de idade. Destas, 55 foram no Mato Grosso do Sul. Muitas de nossas famílias vivem em barracos de lona em beiras de estradas no estado do Mato Grosso do Sul. Considerando apenas estes três tipos de mortes não naturais, em 2014, morreu um Guarani Kaiowá a cada dois dias e meio no Brasil. Isto constitui-se num verdadeiro processo de genocídio contra nosso povo.

Mesmo com essa situação dramática, o governo paralisou os procedimentos de demarcação das terras indígenas no Brasil. No Congresso Nacional, os ruralistas atentam a todo o momento contra nossos direitos fundiários, com proposições legislativas a exemplo da PEC 215/00 e o PL 1610/96. Inclusive alguns Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), instância máxima do poder Judiciário, tem tomado decisões que anulam atos administrativos de demarcação de nossas terras dizendo que não teríamos direito às nossas terras porque não estávamos na posse física das mesmas na data da promulgação da Constituição Federal, a saber, 05 de outubro de 1988. Mas como estaríamos na posse de nossas terras se havíamos sido expulsos violentamente das mesmas e seríamos mortos pelos fazendeiros se tentássemos retornar a elas?

Nossa situação é de desespero. Precisamos de solidariedade e apoio. Sabemos da força de suas palavras. Pedimos sua solidariedade e apoio em defesa de nossos direitos e de nossas vidas.

Grande Assembleia do Povo Guarani Kaiowá - Aty Guassu

Organização do Povo Guarani Kaiowá - Mato Grosso do Sul - Brasil

Bolívia, 09 de julho de 2015

 

Fonte da notícia:  Assessoria de Comunicação - Cimi

Escrito por Semy às 08h24
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Marçal de Souza Tupã-Y encontrou-se com o papa João Paulo II em 1980, durante visita do Sumo Pontífice ao Brasil.

Marçal foi assassinado em 25 de novembro de 1983, três anos depois da conversa que teve com o papa. Negou-se a aceitar o dinheiro ofertado por um fazendeiro, como suborno, para que abandonasse a luta pelos tekohas - lugar onde se é - dos Guarani e Kaiowá. Assim disse Marçal ao papa João Paulo II, na ocasião: "Este é o país que nos foi tomado. Dizem que o Brasil foi descoberto. O Brasil não foi descoberto não, Santo Padre. O Brasil foi invadido e tomado dos indígenas. Esta é a verdadeira história de nosso povo, Santo Padre. Eu deixo aqui o meu apelo, apelo de 20 mil índios que habitam, lutam pela sua sobrevivência, nesse País tão grande e tão pequeno para nós". Eram 20 mil, hoje são quase 1 milhão (IBGE, 2010).

Trinta e dois anos depois, e com a promulgação da Constituição Federal no meio, Elizeu Guarani e Kaiowá diz sobre o encontro com o papa Francisco, durante visita do Sumo Pontífice ao continente latino-americano: "Ele me recebeu com um sorriso, estendeu a mão e me escutou, coisa que a presidente e os governantes brasileiros, mesmo sabendo de nossa situação, nunca fizeram, e se negam a fazer. Eu pedi a ele que interceda por nós, que ajude a fazer o governo brasileiro cumprir a Constituição e demarcar nossos territórios, que o próprio Poder Executivo paralisou. Disse que por causa disso, em todo Brasil, e em especial no Mato Grosso do Sul, vivemos em guerra, que estamos morrendo, sendo massacrados por pistoleiros armados e pelos políticos do agronegócio, que sobre nós existe um verdadeiro genocídio. Pedi pelo futuro de nossas crianças e velhos, para que possam continuar existindo".

Duas lideranças Guarani e Kaiowá, dois papas e um contexto intermitente de genocídio contra os povos indígenas. Francisco ouviu e se comprometeu com os povos indígenas do Brasil, como já o fez em outras ocasiões. Dessa vez, a postura engajada do líder da Igreja Católica se deu durante o Encontro Mundial dos Movimentos Populares, ocorrido na semana passada em Santa Cruz, na Bolívia. Elizeu Guarani e Kaiowá conversou com o Sumo Pontífice e entregou-lhe uma carta (leia abaixo). O indígena, porém, não falou apenas do que sofre os Guarani e Kaiowá e se dirigiu ao papa representando a luta dos quase 1 milhão de indígenas do país, que não é só por terra, mas, sobretudo, para "que possam continuar existindo", nas palavras do próprio Elizeu.

A passagem do papa pela América Latina, que percorreu o Equador, a Bolívia e o Paraguai, balançou as estruturas conservadoras no continente e no mundo. Com discursos de alto teor anticapitalista, incentivando aos oprimidos que se organizem e lutem por terra, teto e trabalho, além de ter aceitado do presidente Evo Morales uma foice e martelo com Jesus Cristo crucificado, feito pelo jesuíta Luis Espinal Camps, assassinado em 1980 depois de ser barbaramente torturado por autoridades militares bolivianas, Francisco, também um jesuíta, declarou: "Queremos uma mudança, uma mudança real, uma mudança de estruturas. Este sistema é insuportável: não o suportam os camponeses, não o suportam os trabalhadores, não o suportam as comunidades, não o suportam os povos".

Elizeu Guarani e Kaiowá e seu povo também não suportam mais o "sistema" - no caso, capitalista e colonial. O agronegócio e o histórico de ocupação violenta das terras indígenas pela colonização levam a uma das realidades mais trágicas que se tem notícia no mundo: centenas de suicídios, atropelamentos, assassinatos, crianças mortas pela fome, uma vida debaixo de lonas, em retomadas atacadas por pistoleiros ou em acampamentos às margens das estradas - entre a cerca e o asfalto. Elizeu, por exemplo, é uma liderança de Kurusu Ambá, tekoha - lugar onde se é - no cone sul do MS. Vive, assim como Marçal Tupã-Y, ameaçado de morte e faz parte do Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos da Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República.

 

A atitude do papa já é muito mais do que o governo brasileiro vem fazendo, conforme Elizeu. Em sua Encíclica Ecológica, Francisco defende o direito dos povos indígenas ao território tradicional e os aponta como os principais defensores da natureza, da Mãe Terra - defendê-la, conforme o papa, é um dever urgente. Francisco não deixou de reconhecer, todavia, o que de ruim a Igreja fez contra os povos indígenas. Pediu perdão reconhecendo o mal causado como irreparável. Não apenas criticou os governos pela completa falta de escrúpulos com os direitos dos povos indígenas, mas na autocrítica reafirmou sua posição veemente e comprometida a favor destas comunidades.   

Escrito por Semy às 08h19
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07/07/2015


A minha filiação ao PSOL

Semy Ferraz (*)

Depois de trinta e cinco anos de participação na militância do Partido dos Trabalhadores (PT) desde a sua fundação, em janeiro de 1980, passo a integrar o Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), com a consciência do dever cumprido e sem ter aberto mão dos princípios e valores éticos pelos quais sempre lutei.

Aliás, a opção pelo PSOL decorre de minha convicção de que hoje é essa a trincheira de luta democrática, da defesa intransigente do Estado de Direito, bem como da cidadania, dos direitos dos trabalhadores, dos idosos, das crianças e adolescentes, da juventude, dos estudantes, dos aposentados, dos desempregados, dos excluídos, dos índios, dos negros, das mulheres, dos homossexuais, dos despossuídos, dos sem-terra e dos sem-teto.

Sou testemunha do papel histórico desempenhado pelo PT durante a luta em defesa das liberdades democráticas e, sobretudo, durante e depois da redemocratização do país, seja na Assembleia Nacional Constituinte, nas emblemáticas conquistas de direitos individuais, sociais, coletivos e difusos, como em votações históricas, na aprovação do Estatuto da Criança e do Adolescente, da Lei Orgânica da Saúde, da Lei Orgânica da Assistência Social, do Código de Defesa do Consumidor, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, do Estatuto do Idoso, do Estatuto da Cidade, da Lei da Natureza, da Lei Maria da Penha, da Lei da Igualdade Racial, da Lei das Cotas, da Lei do Empreendedor, da Lei da Empregada Doméstica, da Lei do Marco Civil da Internet, entre tantas outras não menos relevantes para a conquista de uma sociedade mais justa e solidária.

Ter integrado a militância do Partido dos Trabalhadores desde a sua fundação é, para mim, motivo de honra e de regozijo. Aliás, a militância do PT é, indiscutivelmente, um patrimônio da democracia brasileira. Depois de mais de três décadas, estar fora do partido que ajudei a fundar me causa uma profunda consternação. Mas há algum tempo já havia perdido a identidade com o maior partido da esquerda da história do Brasil: a direção nacional e regional do PT, envolvidas numa série de escândalos, têm deixado se submeter à chantagem dos setores fisiológicos dos partidos que estão na base de sustentação do governo e da direita raivosa que tem acuado a Presidenta Dilma Rousseff, como o próprio Presidente Lula já deixou explícito.

Como homem de esquerda, sou um intransigente defensor das conquistas e do sentido histórico dos últimos quatro mandatos populares, democraticamente eleitos pela população brasileira. No entanto, não admito nem justifico ver a Presidenta Dilma refém de verdadeiros meliantes da política, quando acaba de ter renovado democraticamente o seu mandato, com lisura e total transparência. É repugnante o discurso calhorda dos pseudodemocratas de ocasião, de que ela teria praticado um “estelionato eleitoral” (logo dito por aqueles que se beneficiaram do verdadeiro estelionato eleitoral de 1986, quando das eleições em plena efervescência do Plano Cruzado, políticos que hoje estão espalhados em legendas como o DEM, PPS, PSDB, PSB, PMDB e PTB).

Ao contrário da senadora por São Paulo, eleita e reeleita no PT desde que se iniciou na política, sou levado a tomar esta dura decisão por única e tão-somente continuar a lutar pelos mesmos objetivos de sempre: aprofundar a democracia popular e participativa no Brasil, abolir as injustiças sociais em todos os níveis, superar o abismo social que separa dezenas de milhões de brasileiros e brasileiras e promover políticas efetivas de distribuição real da renda em nosso país, compromisso abandonado pelo atual governo, depois que uma horda de meliantes passou a coabitar em seu seio – fato ocorrido tristemente em nosso estado, como a nomeação  para o Ministério dos Transportes do homem forte do ex-governador,  verdadeiro inimigo do PT, que hoje desfruta de um cargo de confiança no Planalto. E, pasmem, ocupa o cargo com a maior cara de pau.

Aliás, um ex-governador de triste memória para a recente história de Mato Grosso do Sul.

 

(*) Semy Alves Ferraz é engenheiro civil, ex-deputado estadual e ex-secretário de Infraestrutura, Habitação e Transportes de Campo Grande.

Escrito por Semy às 09h01
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28/06/2015


DEMOCRACIA DE MAIS OU DE MENOS...

Semy Ferraz(*)

Como uma onda, é recorrente no Brasil a falsa ideia de que democracia é sinônimo de desperdício e corrupção. Esse mito vem do início da República, tempo em que os “coronéis” (senhores de terras) mandavam e não queriam dividir seu poder com os demais. Isso, inclusive, ficou revigorado deliberadamente durante os vinte e um anos do regime autoritário de 1964, glamourosamente chamado de (sic) “democracia relativa”, quando era voz corrente a lenda de que “o povo brasileiro não está preparado para votar”.

Por outro lado, tal como a vida, a democracia se pratica no município, onde vivem, convivem e se realizam os cidadãos. Daí que, com todo o respeito pelas honradas intenções dos cidadãos de bem que compartilham dessa opinião, mas defender a redução do número de vereadores – seja em nome da contenção de despesas ou sob o pretexto de que o Legislativo municipal é irrelevante –, é requentar o discurso caduco da “democracia de mais ou de menos”, de triste memória.

Minha cidade-natal, Paranaíba (MS), é um exemplo eloquente de que a redução de 13 para nove vereadores não representou economia alguma para os cofres públicos, pois a Constituição Federal de 1988 que define (em seu artigo 29, inciso IV) limites mínimo e máximo no número de vereadores é clara, também, na fixação (em seu artigo 29-A) do percentual do orçamento do município no repasse para a Câmara Municipal, chamado de duodécimo. Independentemente do número de vereadores, o percentual para o Legislativo em municípios com mais de 30.000 habitantes e até 50.000 habitantes é de 7% (sete por cento).

Fica evidente que, independentemente do número de representantes com assento no Legislativo do município, o volume de dinheiro constitucionalmente destinado a esse Poder é o mesmo. No entanto – e nesse sentido o princípio constitucional da democracia representativa precisa ser preservado –, a pluralidade de que se constitui a sociedade em nível municipal fica mais bem representada com 13 membros, e não nove, sobretudo em um contexto pluripartidário com mais de 20 partidos em plena atividade e legalmente organizados no território nacional.

Portanto, mais efetivo que o entendimento simplista de que “quanto menos, melhor”, de outrora, dar plena vigência à democracia preconizada na Constituição Cidadã, além de mais coerente, é de fato e de direito mais democrático. E, para assegurar transparência na administração pública e combater efetivamente a corrupção que há séculos corrói os cofres públicos do Brasil, nada melhor que fazer valer a cláusula pétrea constitucional, que define a democracia como representativa e participativa. Seja por meio dos recursos possibilitados pela internet ou mediante os conselhos de controle social determinados pelo ordenamento jurídico-institucional pós-1988, cabe ao cidadão a fiscalização de todas as políticas públicas (e a aplicação dos recursos de seus respectivos fundos).

Afinal, democracia é transparência, e o respeito pelos princípios da administração pública, entre os quais o da publicidade, passa pelo cumprimento da vontade popular, inclusive na composição da Câmara Municipal numericamente representativa da diversidade de segmentos de opinião e de interesses legítimos e até conflitantes.

Finalmente, toda vez em que o povo – isto é, amplos setores da sociedade – começa a se fazer ouvir pelos governantes, os saudosistas da chamada “democracia relativa” voltam com seus projetos, ora propondo redução do número de membros do Legislativo, ora querendo o fechamento do Parlamento, nas três esferas. Como perguntar não ofende, por que não se propõe algo nesse sentido com relação ao Judiciário?

Aliás, não faltam argumentos para os amantes da “democracia relativa” pretenderem reduzir a vigência da plenitude democrática em nosso País. Em nome do combate à corrupção e sob pretexto de reduzir gastos públicos, até golpe já se praticou no Brasil, basta olharmos o que foi feito entre 1964 e 1985. E é bom lembrarmos que os “paladinos” do nefasto regime não foram devidamente responsabilizados pelos desmandos, abusos e atos lesivos ao erário nacional.

 

(*) Semy Alves Ferraz é engenheiro civil, ex-deputado estadual e ex-secretário de Infraestrutura, Transportes e Habitação de Campo Grande.

Escrito por Semy às 21h44
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08/05/2015


O ÓDIO PELOS PROFESSORES

Semy Ferraz (*)

Tenho quatro irmãs professoras e foram elas que me chamaram a atenção: o PSDB tem ódio pelos professores. Vejamos por quê: em 1988, portanto, 27 anos atrás, o PSDB do então governador Álvaro Dias (hoje senador pelo PSDB/PR) jogou a cavalaria da PM para cima dos professores do estado do Paraná. Foi um episódio lamentável e até hoje é lembrado, em manifestações, no mês de outubro, pelos professores daquele estado.

Anos depois, Fernando Henrique Cardoso, professor-doutor da USP, assumiu a Presidência da República e praticamente privatizou o ensino universitário brasileiro, além de achatar salários, destruir conquistas históricas e quebrar o encanto de gerações com o seu discurso de intelectual “de esquerda”, que inexplicável e contrariamente mudara ao optar pelas elites retrógradas, como é feito há cinco séculos...

Os professores do estado de São Paulo estão em greve há mais de mês, e o governador Geraldo Alckmin, do PSDB, recusa-se a negociar com eles. A postura dele é a mesma dos que criminalizaram, durante o regime de 1964, o movimento estudantil, sindical e comunitário em todo o país. Alckmin expressa melhor que qualquer outro “cardeal” tucano como não se resolver – mas agravar – as questões sociais ao governar por quase três décadas o estado mais rico do país e piorar a qualidade de vida por lá.

No mês passado, precisamente no dia 29 de abril, o governador do Paraná, Beto Richa, um playboy como Aécio Neves, massacrou os professores estaduais com a PM, com cachorros, gás de pimenta e gás lacrimogêneo. Ao contrário de Álvaro Dias, ele não usou os cavalos para pisotear os professores. Menos mal. Richa, que também é do PSDB, está metendo a mão no fundo de previdência dos servidores públicos estaduais. Lembram-se do confisco da poupança do Collor? É um confisco parecido, amealhando direitos líquidos e certos.

Da Arquidiocese de Curitiba, que é conservadora, ao “New York Times”, jornal norte-americano que nada tem a ver com a nossa realidade, foi unânime a condenação ao massacre de Beto Richa. Uma rara unanimidade, aliás. Pena que não seja por motivos que nos encham de orgulho, como uma democracia construída com muito sacrifício.

A propósito, como andam as negociações do novo governador Reinaldo Azambuja, do PSDB, com os servidores e com os professores do estado? Até onde se pode ver, um diálogo de surdos. A bem da verdade, a depender da performance dos dois últimos mandatos do ex-governador, uma relação nada diferente em relação ao Paraná e São Paulo, estados em que professores e funcionários públicos têm que pedir perdão por existirem.

Era assim, também, no tempo das oligarquias regionais, quando a política café com leite reinava em todos os quadrantes do território brasileiro, inclusive no velho Mato Grosso. Getúlio Vargas acabou com essa pouca vergonha, ao instituir o DASP (Departamento Administrativo do Serviço Público), extinto no governo de Fernando Collor de Mello. Juscelino Kubitschek e João Goulart, por seu turno, valorizaram a carreira do magistério e do serviço público, diversamente proporcional aos que se dizem discípulos de seu legado aqui em Mato Grosso do Sul: basta ver o placar eletrônico da Câmara Federal na melancólica sessão que aprovou o projeto de lei que legaliza a precarização do trabalho, ao liberar a terceirização às atividades-fim nos setores privado e público.

 

(*) Semy Alves Ferraz é engenheiro civil, ex-deputado estadual e ex-secretário de Infraestrutura, Transportes e Habitação de Campo Grande.

Escrito por Semy às 07h15
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03/05/2015


LEMBREMOS DAS DIRETAS, JÁ!

Semy Ferraz (*)

Muito embora a sociedade – inclusive a imprensa – não tenha feito o debate com a devida visibilidade pela passagem dos 31 anos da emblemática votação das Diretas-Já, em que o falecido deputado federal Dante de Oliveira (da Oposição à ditadura pelo estado de Mato Grosso) apresentara uma emenda constitucional instituindo para 1985 a volta das eleições diretas para a Presidência da República, o compromisso cívico de preservar o Estado Democrático de Direito nos impõe o dever e o sagrado direito de trazer à tona a relevante mobilização popular que pôs fim aos 21 anos de arbítrio, intolerância, censura e tortura em 15 de janeiro de 1985, com a vitória, ainda que pelo Colégio Eleitoral, da candidatura civil da Aliança Democrática, representada por Tancredo Neves e José Sarney.

A derrota, em 25 de abril de 1984, da referida emenda constitucional – pelo avassalador placar de 298 votos a favor e 65 contra (22 a menos de obter a maioria absoluta de 320 votos) –, foi um dos últimos golpes do velho regime, ao exigir dois terços dos votos do Congresso Nacional (uma aberração introduzida mediante o fechamento do Parlamento brasileiro em abril de 1977, por meio do famigerado Pacote de Abril, o mesmo, aliás, que introduziu a figura caricata e nefasta do senador biônico, ou “eleito indiretamente”, sem o sufrágio secreto e universal, como uma democracia que se preze faz). Isso sem levar em conta o clima que se abateu sobre Brasília, sob toque de recolher, desde a véspera da votação, num verdadeiro clima de guerra declarada contra o povo e a democracia.

Feito em nome da manutenção da ordem, do combate à corrupção e da defesa da segurança nacional, o regime autoritário acabou saindo de seus objetivos prometidos e ficando mais tempo que o anunciado, segundo os seus próprios mentores, como Golbery do Couto e Silva, Carlos Lacerda, Magalhães Pinto, Pedro Aleixo e José Maria Alckmin, que morreram sem ter visto o projeto de país pactuado com empresários e políticos conservadores que não conseguiram ganhar nenhuma eleição desde a deposição de Getúlio Vargas, em 1945. E é bom que se diga que nenhum deles conseguiu ser candidato a presidente da República no regime, nem pela via indireta. Os que chegaram mais perto foram Alckmin e Aleixo, que, como vice-presidentes de Castelo Branco e de Costa e Silva, foram impedidos de assumir a titularidade, tendo havido golpes dentro do golpe, sob a batuta da chamada “linha dura”, o grupo que em 1968 constituiu a Junta Militar que impôs Garrastazu Médici e o Ato Institucional nº 5 (o temido AI-5), de triste memória.

Aliás, para os desavisados que clamam pela volta da ditadura, nem a promessa de acabar com a corrupção foi realizada pelo regime de 21 anos, muito menos a “democracia ocidental” que diziam promover. Ao contrário, quando, em 15 de abril de 1964, Castelo Branco foi empossado depois de proclamado como candidato único, em (sic) “eleição indireta”, quatro dias antes, ele e todo o “comando da revolução” haviam escolhido “o comunismo e a corrupção” como alvo prioritário da autoproclamada “redentora”. Porém, a menos de seis meses de deixar o cargo o último general-presidente, João Figueiredo, o caso “Coroa-Brastel”, envolvendo valores comparáveis hoje aos do caso Petrobrás, havia sido denunciado pela imprensa independente, e o Palácio do Planalto ficou devendo uma explicação à opinião pública. Nem nas memórias, Figueiredo fez qualquer alusão a essa vergonha nacional. Mas não fora o único caso: antes dele, houve o caso Lutfalla, caso Atalla, caso Calmon de Sá, caso Halles, caso Delfin, caso Capemi, Caso Polonetas (ou Simonetas), Caso Brasilinvest, caso Transamazônica, caso Ponte Rio-Niterói, caso Transpantaneira e caso Codrasa (estes últimos episódios atrapalharam as promissoras carreiras políticas de dois coronéis muito influentes na época: Mário Andreazza e Jarbas Passarinho).

Quem viveu sob o regime de intolerância, opressão, arbítrio, censura, tortura, carestia e perseguição não esquece, jamais. Qualquer acervo de jornais das décadas de 1960 a 1990 traz, em suas páginas políticas a comprovação do que escrevemos. Que as conquistas de nosso povo não sejam postas por terra em nome do desvario de perdedores de eleições nacionais. Nosso povo é bem maior que os aventureiros que quiserem aproveitar-se da crise para difundir ideias bizarras como remédio para todos os males.

 

(*) Semy Alves Ferraz é engenheiro civil, ex-deputado estadual e ex-secretário de Infraestrutura, Transportes e Habitação de Campo Grande.

Escrito por Semy às 21h46
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23/04/2015


O LEGADO DE EDUARDO GALEANO

Sou da geração que aprendeu a fazer política desafiando os velhos conceitos e preconceitos, então inquestionáveis. Afinal, vivíamos numa ditadura, e como em todo regime autoritário, não tínhamos qualquer liberdade. Ter acesso à leitura de obras clássicas, então, era uma ousadia, porque driblar a censura era um ato de subversão, passível de punição por decretos comparados ao nefasto AI-5, como o 228 e 477. E uma dessas ousadias foi ter lido “As veias abertas da América Latina”, de Eduardo Galeano, que era passado de mão em mão, quase clandestinamente.

Com seu texto acessível e inteligente – uma rara capacidade de explicar o injustificável –, Galeano foi um verdadeiro mestre ao desconstruir o mito da “civilização” trazida pelos colonizadores para a América “selvagem”. Isso além dos porquês de sucessivos saques, pilhagens, conspirações, traições, massacres – ou melhor, genocídios – e, sobretudo, escravidão, de toda ordem. Isso num tempo em que a chamada Guerra do Paraguai era motivo de ufanismo, por causa da ausência de informações mais amplas sobre os verdadeiros motivos desse sangrento episódio, como o interesse da Inglaterra pela ampliação de novos mercados, inclusive na América.

Sua obra causou um verdadeiro alvoroço no meio estudantil e, obviamente, intelectual. Graças a ela o Brasil passou a enxergar-se dentro da América Latina. Hoje parece curioso, mas uma velha revista semanal, em 1969, foi capaz de trazer numa de suas famosas capas, um mapa do continente sem incluir o País, com a seguinte chamada: “Para onde vai a América Latina?”.

Ainda na década de 1970, quando o jornalista Cláudio Abramo era editor da Folha de S.Paulo, o seu suplemento dominical chamado “Folhetim” teve a coragem inimaginável de trazer Galeano para seu quadro de colaboradores, desafiando os raivosos senhores da censura. Não é difícil imaginar que o sisudo jornalista – irmão do professor Perseu Abramo, emblemático dirigente sindical que enfrentou a ditadura nos anos de chumbo – acabou perdendo seu cargo por ter ignorado as “recomendações” dos censores e de seus chefes em Brasília.

É marcante o depoimento de Galeano ao filme de Sylvio Back (“Guerra do Brasil”, de 1987). Quem ainda não assistiu, recomendo que assista a esse belo documentário. A palavra, principal ferramenta de trabalho, aliada à sua habilidade de observador perspicaz, o tornou uma espécie de consciência viva da humanidade. Esteve presente nos momentos mais dramáticos destes dois últimos séculos, e seu testemunho, oportuno e singular, norteou os caminhos das sociedades contemporâneas, ou, no mínimo, fez o contraponto indignado.

O Brasil (e todo o mundo) reconheceu em vida o legado de Galeano. Durante o único governo de esquerda que Mato Grosso do Sul teve, numa das primeiras edições do Festival América do Sul, ele foi homenageado pelo conjunto de sua obra, pelas relevantes contribuições para a construção da identidade latino-americana. Lamentavelmente, por motivos de saúde, ele não pôde estar presente, em Corumbá, tendo enviado um amigo para representá-lo na homenagem.

O falecimento de Galeano, ocorrido na semana passada, empobreceu irreparavelmente não apenas as letras, mas a humanidade, tamanha a dimensão de sua obra e de seu comportamento como cidadão do mundo e de seu tempo. A América Latina, particularmente, sentirá muita falta de suas reflexões repletas de leveza, genialidade e sutil irreverência. Ele foi mais que um brilhante escritor e jornalista: deu voz aos invisíveis, deu vez aos excluídos, deu consciência à cidadania, deu exemplo aos intelectuais. E o mais importante, sem qualquer pretensão, sem qualquer propósito deliberado.

 

(*) Semy Alves Ferraz é engenheiro civil, ex-deputado estadual e ex-secretário de Infraestrutura, Habitação e Transportes de Campo Grande.

Escrito por Semy às 15h26
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13/04/2015


ENERSUL: CORREÇÃO DE ROTA

Semy Ferraz(*)

É, em princípio, alvissareira a notícia dando conta da abertura de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Legislativo estadual para investigar as irregularidades na gestão da antiga Enersul (Energisa hoje), tristemente célebre por praticar os preços mais altos pelos serviços de fornecimento de energia elétrica, seja para a indústria, o comércio ou o usuário residencial, e sem quaisquer investimentos em tecnologia, otimização ou modernização de seu setor operacional.

Contudo, é fundamental observar que a referida CPI tem que servir para apurar responsabilidades para que os órgãos competentes possam punir exemplarmente quem cometeu falcatruas. Até porque houve uma CPI com igual finalidade, dois anos atrás, que deu com os burros n’água. Hoje há muito mais a se investigar: embora sem a devida cobertura jornalística, os novos controladores da empresa concessionária dos serviços de fornecimento de energia elétrica denunciaram a existência de um “mensalão” com uma generosa lista de supostos beneficiários.

O fato é que o consumidor (em outras palavras, a população) não pode ser penalizado pela impunidade. E reiteramos a afirmação por termos sido, em 2003, como membro do Legislativo estadual, responsável pela realização de audiências públicas em todo o estado e, em 2006, autor do pedido de instalação da primeira CPI da Enersul, cujos trabalhos foram suspensos no mesmo ano, por decisão judicial. Aliás, diga-se com todas as letras que o Judiciário estadual tem responsabilidade por esse imbróglio, ao ter concedido liminar suspendendo a CPI de 2006, detentora de uma forte mobilização desde o seu início, em 2003. O mesmo deve ser dito sobre o Judiciário federal, que em 2003, por meio do TRF (Tribunal Federal de Recursos) de São Paulo, igualmente foi omisso quando julgou improcedente a ação civil pública do MPF (Ministério Público Federal), que questionava os critérios que permitiam os reajustes abusivos.

Longe de pretender uma retaliação a um dos expoentes da oposição ao atual Governo Federal, mas a falha original ocorreu, indiscutivelmente, em 1997, quando o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso promoveu a sua obsessiva “desestatização” sob os cânones do Estado mínimo. Nesse contexto, sob a batuta do núcleo de poder do governo de FHC, o Executivo estadual, com o aval do Legislativo, privatizou a Enersul utilizando um modelo de concessão onerosa, em que o objetivo principal era fazer caixa para os governos estaduais e federal.

Na época, a ANEEL não dispunha de condições nem seu pessoal estava preparado para ser eficiente – afinal, tratava-se de uma instituição recém implantada, desprovida de know-how e instrumentos efetivos que lhe proporcionassem uma intervenção qualificada. Mas, a bem da verdade, a ANEEL e sua homóloga sul-mato-grossense nunca atenderam aos interesses dos consumidores em toda a sua existência – tanto assim que com as inúmeras evidências de irregularidades, até a presente data não tomaram as devidas providências em defesa dos interesses dos milhões de consumidores, espoliados cinicamente em nome da modernidade.

A despeito de sua honrada população e da existência de homens e mulheres de probidade exemplar, Mato Grosso do Sul, desde a sua criação em plena ditadura, tem dado sobejas provas de estar vocacionado para a fraude de genialidade duvidosa. E, de mais a mais, chega a causar indignação tamanha a parcimônia de influentes setores da sociedade com o embuste institucional, sobretudo nos últimos nove anos de mandonismo e truculência.

O estado que, no dizer dos louvadores do regime de 1964, nascera “para ser modelo” tem protagonizado aberrações insólitas, como essa da Enersul / Energisa. Cabe agora aos homens e mulheres sinceramente comprometidos com a ética e os princípios da administração pública fazer a urgente correção de rota, sob pena de as próximas gerações cobrarem de nós pela omissão daqueles que se locupletaram com o dinheiro do contribuinte.

 

 (*) Semy Alves Ferraz é engenheiro civil, ex-deputado estadual e ex-secretário de Infraestrutura, Habitação e Transportes de Campo Grande.

Escrito por Semy às 13h05
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21/03/2015


SOBRE O 15 DE MARÇO

Semy Ferraz

No último dia 15 de março transcorreu o trigésimo aniversário do sepultamento do regime civil-militar instalado por meio do golpe de 1º de abril de 1964, depois de 21 anos de intolerância, perseguição, medo, censura, tortura, arbítrio, corrupção, escândalos financeiros, endividamento externo, inflação descontrolada, elevação astronômica do custo de vida, empobrecimento geral da população e, sobretudo, criminalização da política.

A transição tinha sido penosa – desde que a abertura fora anunciada em 1975 pelo general Ernesto Geisel, o quarto presidente do regime, como um ato de generosidade dos “donos do poder”, devendo ser “lenta, gradual e segura”, muitos avanços e recuos ocorreram: “suicídio” do jornalista Wladimir Herzog nas dependências do temido DOI-CODI, morte igualmente misteriosa do operário Manoel Fiel Filho, a tentativa malograda de atentado do Rio Centro (crimes nunca esclarecidos), cassação de deputados oposicionistas como Alencar Furtado (líder da oposição) e o fechamento do Congresso Nacional para impor o Pacote de Abril de 1977, que introduziu a figura bizarra do “senador biônico” (indicado pelo general-presidente) e alterações no regimento da Câmara e no Senado, de modo a dificultar a possibilidade de a oposição ter maioria legislativa no Congresso Nacional.

Curiosamente, em vez de este domingo ter servido para a necessária reflexão, inclusive pelos meios de comunicação, do fim tardio de um regime que em nada contribuiu para o amadurecimento político de nossa cidadania, tivemos sucessivos atos alucinados em nome da liberdade de expressão: demonstração explícita de intolerância contra jornalistas de veículos alternativos que cobriam profissionalmente as manifestações (como Carta Capital e revista Fórum, por exemplo), em que quase se chegou a uma tentativa de linchamento, não fosse a habilidade dos experientes repórteres.

Mas o pior de todos os atos promovidos por “líderes” de “movimentos” virtuais – sem quaisquer características de se observarem coletivos organizados, mas perigosamente monocráticos, individuais – foi o protagonizado por um grupo de duas mil e quinhentas pessoas que encerraram sua passeata no centro do Rio, diante de um quartel-general do Exército, implorando a “volta dos militares” ao poder. É, no mínimo, um verdadeiro atentado à memória das centenas deram a vida, que foram mortos por pensarem diferentes dos que na época governavam com a baioneta.

Nós, da geração das diretas-já e da resistência democrática das décadas de 1970 e 1980, que com muito esforço conquistamos as liberdades democráticas com as quais hoje é possível até enxovalhar a dignidade da Presidenta Dilma Rousseff e sair pregando absurdos como esse, não podemos nos silenciar, sob pena de estimularmos a insensatez do desvario. Demos os melhores dias de nossas vidas por uma generosa causa – a conquista do Estado Democrático de Direito, por meio de uma Constituição Federal fruto de uma Assembleia Constituinte, em que toda a sociedade participou, ainda que nos embates ocorridos não vencêssemos todas as votações, refletindo a diversidade de legítimos interesses de nossa complexa sociedade.

Aos que bradavam um patriotismo cego, despolitizado, precisamos lembrar que uma sociedade, em pleno século XXI, é constituída de diversos interesses, todos legítimos, mas muitas vezes antagônicos. Isso está assegurado em nossa Lei Maior, que não podemos rasgá-la para agradar grupelhos que não se assumem publicamente e tentam criminalizar a política, em nome de um combate hipócrita da corrupção, pois enviesado: por quê, então, não incluem em suas palavras de ordem a reforma política, de modo a acabar com o financiamento privado de campanhas milionárias que elegem parlamentares que usam o cargo para defender interesses menores, de tráfico de influências e congêneres?

A quem, aliás, interessa promover a desestabilização política e econômica, senão aos que representam interesses menores, contrários à defesa da soberania do povo e do patrimônio brasileiro (entre os quais o pré-sal, a autossuficiência energética, a defesa de nossos recursos hídricos e de nossos biomas únicos no planeta)? Em recente entrevista, o mundialmente reconhecido cientista político brasileiro Moniz Bandeira afirmou que “as demonstrações de 2013 e as últimas, contra a Presidente Dilma Rousseff, não foram evidentemente espontâneas”.

Defender, portanto, o Estado Democrático de Direito é defender o Brasil, sob pena de vermos no território da América Latina a nefasta repetição da abominável “Primavera Árabe” de seis anos atrás – e o resultado vemos hoje: Estados desintegrados, nações dizimadas, crianças abandonadas à própria sorte, correntes migratórias crescentes, enquanto as poderosas indústrias de armas e de petróleo aumentam inescrupulosamente seus lucros vergonhosos.

 

(*) Semy Alves Ferraz é engenheiro civil, ex-deputado estadual e ex-secretário de Infraestrutura, Habitação e Transportes de Campo Grande.

Escrito por Semy às 21h35
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09/03/2015


E O FESTIVAL AMÉRICA DO SUL?

Semy Ferraz (*)

Criado em 2004, depois de um importante processo de participação de todos os segmentos ligados à cultura e às artes, no segundo mandato do Governador Zeca do PT (em parceria com o Governo do Presidente Lula), o Festival América do Sul desde a sua primeira edição foi sediado em Corumbá, por conta das características únicas do mais antigo centro urbano de Mato Grosso do Sul, situado no coração da América do Sul e do Pantanal, além de ser indiscutível berço da cultura regional.

À exceção de sua primeira edição (realizada na semana de 12 de outubro, Dia do Descobrimento da América), desde 2005 tem sido realizado na semana do feriado de 1º. de maio (Dia do Trabalhador, feriado internacional que permite uma coincidência de datas para a liberação dos produtores e aficionados da cultura e das artes em toda a América do Sul. Isso tudo foi objeto de ampla discussão no processo participativo de implantação do maior evento integracionista da cultura no País.

Causa estranheza, no entanto, a decisão unilateral do atual governo do estado de mudar a data do Festival América do Sul, da última semana de abril para a primeira semana de junho, tradicional mês em que acontece a Festa do Banho do São João invariavelmente na segunda quinzena. Não é preciso ser técnico em eventos para antever que essa péssima coincidência prejudicará, em primeiro lugar, a cultura popular e os agentes culturais de Corumbá, município-sede do festival e referência no tradicional festejo junino.

Tal gesto, lamentavelmente, por si só, exprime, além do injustificável desconhecimento do calendário cultural do estado pelos atuais gestores estaduais da cultura, sua falta de articulação com os gestores municipais da cultura. Mais ainda, vem denunciar a indiferença com que os três últimos mandatos do Executivo estadual com a cultura regional emanada do Pantanal transfronteiriço (leia-se Corumbá e fronteiras).

Como querendo remediar o irremediável, de última hora, consumado o estrago, diante do repúdio da população local, sobretudo dos agentes culturais e artísticos pantaneiros (há tempos segregados do processo, como párias em sua própria terra), a Secretaria de Cultura do estado, faz uma tímida convocação para uma audiência pública a fim de, extemporaneamente, “incluir os excluídos” e, talvez, ouvir suas justas reivindicações, acumuladas nos últimos oito anos de eventismo autoritário e de gosto duvidoso.

É consensual a opinião de que, entre 2007 e 2014, o Festival América do Sul foi se definhando ao ponto de ter chegado à sua 11ª. edição bastante esvaziado, como que o ex-governador quisesse castigar a população pantaneira por não lhe ser simpático por seus rompantes de caudilho do século passado. Não por acaso, já é perceptível o desejo em alto e bom som de consideráveis segmentos locais pela reunificação do Pantanal e da emancipação do jugo oligárquico dos Campos de Vacaria. Aliás, não foi por essas razões que o Sul passou meio século pleiteando por sua secessão de Cuiabá?

Controvérsias políticas à parte, cabe ao governo estadual a postura republicana de gerir os interesses cidadãos com isenção e igualdade, sem submeter à marginalidade qualquer localidade ou região que, por ventura, não tenha votado majoritariamente nos candidatos ligados às suas coligações partidárias. Pois é isso mesmo que tem repercutido no interior de Mato Grosso do Sul, desde que o atual governador se instalou no Parque dos Poderes.

O Brasil do século XXI não mais tolera a volta da prática de retaliações políticas emboloradas, que se remetem aos tristes tempos em que as oligarquias mato-grossenses castigavam populações inteiras quando se encontravam no exercício do poder. E curiosamente isso vem sendo praticado pelos que, em nível nacional, fazem o discurso da modernidade e da ética. Como que dissessem “façam o que digo, não o que faço”.

 

(*) Semy Alves Ferraz é engenheiro civil, ex-deputado estadual e ex-secretário de Infraestrutura, Habitação e Transportes de Campo Grande.

Escrito por Semy às 12h44
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